4 de maio de 2018

Debatedores apresentaram cases de uso de dados nas áreas química e farmacêutica, alimentos e embalagens e metalomecânica

A indústria está preparada para a transformação digital? Algumas empresas e setores já estão, mas ainda temos um longo caminho a percorrer quando o assunto é o uso estratégico de dados. Foi a partir dessa questão que os participantes dos três painéis do 8º Simpósio Internacional da VDI-Brasil, que aconteceu no último dia 24 de abril, em São Paulo, expuseram cases, levantaram questionamentos e apresentaram insights para inspirar e incentivar boas práticas a fim de melhorar a competitividade por meio do Big Data.

O tema do evento este ano foi “Big Data Brasil – Digitalizando Competitividade”. Os dados são parte essencial da digitalização da indústria. Segundo o estudo da Business Software Alliance (BSA), hoje produzimos cerca de 2,5 quintilhões de bytes todos os dias. Uma parte expressiva dessas informações vem do setor industrial, entretanto, é necessário saber explorar o potencial dos dados gerados pelas inovações para que a transformação de fato ocorra.

Painel Químico e Farmacêutico

O primeiro painel do evento, moderado pelo Diretor de Assuntos Técnicos e Inovação da SINDUSFARMA, Jair Calixto, colocou em pauta o uso dos dados na indústria química e farmacêutica, uma das mais avançadas em pesquisa, desenvolvimento e inovação atualmente no Brasil. Só no último ano, a indústria farmacêutica faturou R$ 57 bilhões.

Este setor é grande usuário das novas tecnologias para diversos fins e não somente na área de pesquisa e desenvolvimento dos medicamentos. Em um case desenvolvido pela Accenture Brasil, para uma farmacêutica, foi utilizada tecnologia de machine learning e big data para escolher quais médicos receberiam medicamentos inovadores, que têm um alto custo para serem prescritos aos pacientes. Estes profissionais também seriam viabilizadores desse remédio, lutando para que os pacientes, tanto do SUS quanto dos planos, tivessem acesso a ele.

“Usamos tecnologia de reconhecimento facial para entender como esses médicos reagiam a determinadas palestras e momentos impactantes. Após coletar esses dados, fizemos a análise e criamos um modelo preditivo, indicando quais destes profissionais deveriam ser abordados”, conta a gerente de Applied Intelligence da Accenture Brasil, Mariana M. Smidt.

A análise de dados pode ajudar em muitos outros aspectos. O pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT, Dr. Adriano Leal, elencou alguns deles: detectar falhas, gerenciar operações e manutenções, fazer recomendações baseadas em diferentes cenários probabilísticos, simular operações futuras de ativos com base em dados históricos na nuvem, usar dados para montar treinamento e melhoria da segurança de dados, que, para ele, deve ser tratada de forma horizontal em toda cadeia produtiva e na sociedade.

O uso dos dados tem um papel muito importante em toda a cadeia produtiva e acelera processos, como abordou o CIO de TI da LIBBS, Henrique Holzhausen.

“Na área de pesquisa, leva-se muito tempo para testar. E hoje temos um retorno sobre eficácia e efeitos adversos do medicamento pelo relato de médicos e pacientes. Quanto mais sensores e tecnologias usarmos para monitorar isso, teremos mais informações em tempo real. Isso acelera nosso processo de alterações e diminui o tempo de chegada do medicamento até a população. Dentro da pesquisa clínica, o Big Data tem papel fundamental para essa revolução da indústria farmacêutica”, ressaltou Henrique.

Painel Alimentos e Embalagens

Apesar de não ter tanto destaque, o setor de alimentos e embalagens tem uma representatividade importante no PIB brasileiro. Cerca de 9,8% dele vem da indústria de alimentos, e 1% da de embalagens. E o uso de tecnologias de Big Data nessas áreas traz soluções tanto para empresas quanto para a população.

“Toda cadeia produtiva gera informação e ela deve ir para algum lugar. Perdemos hoje R$ 139 milhões em desperdício de alimentos no Brasil ao longo da cadeia. Um sistema que condensa e analisa informações faz com que as empresas possam pensar em soluções para melhorar esses processos”, destacou o moderador do debate, Prof. Antônio Cabral, Coordenador da Pós-Graduação de Embalagem e Professor Titular do Instituto de Tecnologia Mauá.

Atualmente, a indústria 4.0 já tem soluções de imediata aplicação que permitem atender pontos importantes da indústria. Para exemplificar esse fato, Diego Cadete, Gerente de Contas para Food and Beverages da Siemens Brasil, apresentou um case em que o cliente precisava de uma solução que rastreasse, de ponta a ponta, a cadeia do alimento para garantir segurança ao produto e gerar dados sobre o que acontece no caminho da produção até entrega.

“Com esse tipo de ação, começamos a integrar toda cadeia produtiva, desmistificamos a indústria 4.0 e os clientes passam a entender que as soluções são reais. É claro que não se trata de uma mudança binária, é um caminho a ser percorrido, mas o importante é começar”, explicou Rafael.

Durante o debate, Christian Geronasso, Consultor no Centro de Excelência da SAP Brasil, levantou a questão de que não se trata apenas da tecnologia, é necessário a inteligência, a estratégia, que somente o ser humano é capaz de moldar para fazer com que a tecnologia funcione de forma útil.

“Temos dificuldade em inovar porque pensamos que um drone é a inovação, mas, na verdade, inovação é podar uma árvore para evitar a queda de energia e, consequentemente, evitar prejuízo para empresa. O drone foi um caminho, a ferramenta, mas é necessário que alguém pense na estratégia”, explicou Christian.

Painel Indústria Metalomecânica

O último painel do evento foi marcado pela ideia de conectividade e colaboração. O moderador, João Delgado, Diretor Executivo de Tecnologia da ABIMAQ, frisou a importância da colaboração, principalmente para o setor de metalomecânica, que sempre esteve muito a frente nas questões de inovação.

“Estamos em um mundo colaborativo, e essa é a diferença. As plataformas abertas, onde os dados fluem, são as que funcionam. O petróleo de hoje é o dado, e a questão é como trabalhamos ele. Sensores, todos já sabem fazer, mas se você não souber conectar e extrair os dados, de nada vai adiantar. O segredo são pessoas”, pontuou João.

Neste gancho, o analista de Desenvolvimento da Bosch Brasil, Gabriel Natucci, trouxe para os convidados um pouco do trabalho da empresa, que hoje acredita e investe no conceito do conhecimento difuso. Para ele, estamos saindo de um mundo especialista e caminhando para um mundo mais generalista, para aprendermos coisas diferentes que possam agregar valor para o produto.

“Um exemplo do que fazemos hoje na Bosch é o desenvolvimento de produtos em diversas outras áreas, como, por exemplo, na pecuária, e é isso o que chamamos de conhecimento difuso. Pegamos tudo o que sabíamos sobre desenvolver carros e produtos robustos, e aplicamos em novas tecnologias para novos setores”, explicou Gabriel.

Um questionamento levantado pelo analista foi a real necessidade de se coletar tantos dados. Gabriel frisou que dados devem agregar valor para as pessoas, caso contrário, perdem a importância e a funcionalidade.

“Se não agregar valor para o cliente, não funciona. Big Data, para nós da Bosch, não é apenas sair coletando informações. Inovação é coletar informações relevantes para algum problema e dar valor a elas. É claro que isso envolve a melhoria dessas informações também”, completou Gabriel.

A Mercedes-Benz também é uma empresa que investe muito em coleta e análise de dados, e foi isso que Diretor de TI da empresa, Mauricio Mazza, mostrou para os convidados através de dois cases, um do Brasil e outro da Alemanha.

“Ha alguns anos coletamos dados da linha de produção com bastante detalhe, e, agora, começamos a explorá-los para verificar onde há falhas e desperdício para melhorar nosso processo de trabalho”, explicou Maurício.

A pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT, Dra. Ana Paola Braga, completou o time de debatedores e falou sobre “de onde coletar esses dados e como conseguimos as variáveis que vão nos mostrar detalhes do que está acontecendo”. De acordo com ela, essas variáveis podem vir de diversas partes do processo de produção e estão conectadas.

Palestras

O evento contou ainda com palestras do Ex-presidente e atual Senador Fraunhofer-Gesellschaft, do Prof. Dr. Hans-Jörg Bullinger, do Secretário de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento, Prof. Dr. Jorge Arbache, e do vice-presidente de Tecnologia na Association For Manufacturing Technology e diretor executivo no MTConnect Institute, Tim Shinbara.

Confira como foram essas palestras aqui.

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