26 de abril de 2018

Atualmente, apenas 10% das empresas de manufatura global têm práticas de digitalização avançadas, segundo o relatório Global Digital Operations 2018 Survey

O questionamento atual da indústria não é mais sobre como produzir dados ou quantos dados coletar, e sim de que forma usá-los estrategicamente para melhorar a competitividade. Com este tema em pauta, o 8º Simpósio Internacional de Excelência em Produção, que aconteceu no último dia 24 de abril, em São Paulo, levou grandes nomes, nacionais e internacionais, para debater, com engenheiros e representantes da indústria, as soluções e insights para uma nova era tecnológica.

A digitalização pode ser o caminho para melhorar a competitividade, mas não é a única solução. Durante a abertura do evento, o vice-presidente da VDI-Brasil, Maurício Muramoto, destacou que a competitividade é um processo construído por várias vias.

“Não falamos mais de competitividade sem falar de mudança de mindset. A necessidade não respeita fronteiras, precisamos de visão estratégica, da parceria entre indústria, academia e governo para construir um ecossistema que fortaleça nossas vantagens”.

É a partir deste trabalho conjunto que muitos outros países tem ganhado vantagem competitiva a frente da transformação digital. Para o professor Dr. Hans-Jörg Bullinger, ex-presidente e atual senador da Fraunhofer-Gesellschaft – uma das sociedades científicas mais importantes da Europa –, as parcerias são essenciais para a criação de negócios inovadores e para o avanço da digitalização na indústria. E é isso o que a Alemanha tem feito.

“Nas universidades transformamos dinheiro em conhecimento e, quanto mais dinheiro as universidades recebem, mais conhecimento geram. Esse conhecimento gera capital por meio da inovação, de produtos e serviços que podem ser vendidos para a sociedade”.

Em sua política de trabalho, a Fraunhofer-Gesellschaft já atua de maneira conjunta tanto com o setor público quanto com o privado. Cerca de um terço de sua receita vem do trabalho com o governo, e dois terços são de pesquisas contratadas por empresas.

Big Data: digitalização na sociedade

Dentro do universo das soluções digitais que as indústrias estão adotando, o Big Data é uma das grandes apostas, que já traz bons resultados e pode ajudar no desenvolvimento de muitas outras soluções na transformação digital da indústria e em todas as outras esferas da nossa sociedade.

Cerca de 72% das empresas industriais do mundo acreditam que o uso de Big Data e análise de dados trarão mais qualidade para relações com clientes, e que isso influenciará o ciclo de vida do produto. Entretanto, a maioria das organizações ainda toma decisões com base em abordagens tradicionais e intuição, não na análise de dados. O dado é do estudo “Industry 4.0: Building the digital enterprise”, realizado pela PwC em 2016.

Não se trata apenas de introduzir uma nova tecnologia na empresa. O Big Data sozinho não funciona, é necessário o trabalho de inteligência humana, por isso, o ser humano será peça chave para impulsionar a inovação.

“Nós estamos morrendo de sede por conhecimento, mas ao mesmo tempo, nos afogando em meio à tantas informações, das quais não conseguimos extrair o que é relevante. Tenho que ter conhecimento de base e saber como avaliar essas informações, afinal, precisamos de dados para informática, algoritmos, dados sensoriais, para telefonia móvel, etc., mas, para isso tudo funcionar, precisamos especialmente de pessoas”, explicou Bullinger.

Será por meio dos dados que vamos conseguir fazer a transformação digital, tanto na indústria quanto no mundo, criando, assim, uma interconectividade cada vez mais forte entre os processos. Sem a análise dos dados, não é possível fazer essa mudança.

Criar inovações de impacto é um dos grandes desafios atuais, mas, para o professor, os engenheiros devem analisar os mapas de inovação e pensar no que precisa ser mudado para que, no futuro, tenhamos uma vida melhor. Esta é uma das características da digitalização no futuro.

 

Prof. Dr. Hans-Jörg Bullinger, ex-presidente e atual senador da Fraunhofer-Gesellschaft, durante a 8ª edição do Simpósio Internacional de Excelência em Produção: Big Data Brasil – Digitalizando Competitividade.

 

Desafios para a transformação digital

Um melhor uso dos dados pelas empresas pode ter um impacto positivo não apenas para os próprios negócios e a economia, mas também para toda a sociedade, criando laços entre indústria e academia, desenvolvendo novas políticas para inovação e produzindo cada vez mais tecnologias que tragam impacto para a vida das pessoas.

Para um país em desenvolvimento, como o Brasil, é importante pensar em formas de desenvolver a digitalização, que vão além da simples implementação da tecnologia.

O professor Dr. Jorge Arbache, Secretário de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento do Brasil, explicou que há o risco de não percebermos que tecnologias como Big Data estão se tornando commodity e, por isso, um aumento de produtividade obtido não implicaria em um aumento de competitividade global.

“Novas tecnologias são muito importantes para o Brasil e para todos os outros países, mas é preciso ter noção dos limites do acesso dessa tecnologia para o aumento da competitividade, e não da produtividade. Se você não entende isso, você não entende a questão principal, que é, “se” e “como” a tecnologia pode, de fato, fazer diferença para você”, explicou Arbache.

Empresas digitais podem se comunicar, analisar e usar dados para conduzir ações inteligentes no mundo físico e criar novos negócios. É isso que tem feito grandes empresas de tecnologia, que, hoje, estão começando a explorar outros mercados, fazendo com que até a indústria repense as formas como têm produzido inovação.

Para o norte-americano, Tim Shinbara, vice-presidente de Tecnologia na Association For Manufacturing Technology e diretor executivo no MTConnect Institute, é necessário enxergar oportunidade nesse processo de mudança.

“Ao invés de continuar fazendo mais do mesmo – só que com tecnologias digitais – é preciso enxergar novas conexões entre setores. Assim como a Google começa a construir carros e o Facebook robôs. Precisamos entender que o Big Data permite fazer algo que você já faz bem, mas que pode ser feito ainda melhor, criando valor para as pessoas. Os dados não são o mais importante, o uso dos dados é que faz a diferença. É torná-los informação”, completou Shinbara.

O trabalho conjunto e a mudança de mindset serão as chaves para continuar inovando e superar os desafios, como pontuou Bullinger.

“Nenhum stakeholder – indústria, academia e governo – consegue superar os desafios atuais sozinho. Além disso, uma participação equilibrada entre pesquisa de base e aplicada é fundamental. Não basta apenas criar conhecimento por meio de recursos públicos. É preciso que o conhecimento volte a gerar receita para a economia por meio da inovação”.

Painéis de debate

A fim de detalhar esta análise estratégica sobre como a digitalização pode inserir a indústria brasileira nas cadeias globais de valor, o evento contou ainda com três painéis de debate. Cada um destes painéis discutiu cases concretos de aplicação de tecnologias digitais em setores com potencial expressivo de fortalecer a sua competitividade global, entre eles as indústrias química, farmacêutica, alimentícia e de embalagens e metalomecânica.

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