Aconteceu ontem (11/9), em São Paulo, o IX Simpósio Internacional de Excelência em Produção: A Indústria 4.0 rumo à Economia Circular. O evento foi organizado pela Associação de Engenheiros Brasil-Alemanha – VDI-Brasil em parceria com a GS1 Brasil e contou com o patrocínio da Siemens, Lanxess, Leadec, Mercedes-Benz, Sabó e VTech.

Reunindo importantes nomes de empresas brasileiras, foram discutidos quais são os caminhos que a Indústria 4.0 tem que percorrer para chegar à Economia Circular e a importância de se discutir esses novos paradigmas e práticas frente à escassez da Terra.

Maurício Muramoto, presidente da VDI-Brasil e Sócio-Diretor da MHMURA Assessoria Empresarial Ltda, deu introdução ao evento agradecendo a todos os participantes e falando sobre a importância do tema. “Essa é uma excelente oportunidade para debatermos a Economia Circular, um tema não muito difundido, mas de extrema importância nos dias de hoje”.

Roberto Matsubayashi, Diretor de Inovação na GS1 Brasil, introduziu o tema falando sobre a economia circular e tecnologias habilitadoras. “O grande objetivo da GS1 é gerar o menor risco possível e reaproveitar tudo o que for consumido como nova matéria-prima”, conta. Os sistemas da GS1 têm como características identificar, capturar, compartilhar e utilizar, por meio de Internet das Coisas.

André Wulfhorst, vice-presidente da VDI-Brasil e Gerente Sênior de Desenvolvimento de Rede Veículos Comerciais e Treinamento da Mercedes-Benz do Brasil, falou sobre a diretriz VDI 4000, que deve ser publicada na Alemanha até fevereiro de 2020 e, posteriormente, no Brasil. “O grande diferencial da Indústria 4.0 é a agilidade, velocidade com que as coisas são feitas. É preciso capacidade e produção em tempo real. É justamente a conexão entre elementos tecnológicos, como também organizacionais, que torna possível a agilidade”.

O Vice-Presidente da VDI-Brasil, José Frias Borges Jr, que também é diretor de Estratégia, Inteligência de Mercado e Business Excellence para as divisões Digital Factory, Process Industries and Drives e Building Technologies da Siemens no Brasil, deu prosseguimento falando sobre a importância de se promover eventos como esse. “Esse é um evento montado com muito carinho, pois olhamos e escolhemos a dedo os temas mais importantes para a engenharia no Brasil, sempre com uma leitura da Alemanha”.

Painel discute produção eficiente e logística inteligente

O moderador do painel, Christian Dihlmann, vice-presidente da VDI-Brasil, presidente da ABINFER e Diretor Brtooling A B C, deu início ao painel falando sobre a sinergia entre os temas Indústria 4.0 e Economia Circular. Dentre os convidados estavam importantes nomes da Basf, Voss Automotive, Correios do Brasil e Siemens.

Patrícia Cavalheri, representante da Basf, falou que a Basf está no meio da transformação digital, entendendo como estão impactando a vida de suas manufaturas e também a interação com os clientes, modelo de negócio e, principalmente, nos problemas que o país tem e que precisam ser resolvidos. “Quando olhamos para uma imagem de lixão é impossível não ficar impactado. Temos, nesse caso,  problemas social, ambiental e regulatório. É social porque muitas pessoas vivem daquele lixão em condições precárias, ambiental porque traz doenças e grandes problemas ao solo e água, e regulatório porque as Brand Owners, como Nestlé, Coca-Cola, indústrias de cosméticos, entre outras, precisam compensar 22% das embalagens colocadas no mercado, mas não existe cooperativas suficientes e os certificados são passíveis de fraude. Nós, como cidadãos e como indústria, temos uma responsabilidade muito grande de tentar encontrar alternativas para resolver esse problema, de preferência, que envolva economia circular, que faça isso voltar para a indústria de alguma forma”, argumenta.

A Basf está criando um projeto de Blockchain que visa envolver toda a cadeia. Nessa plataforma, os créditos de reciclagem circulam e o fornecedor de matéria-prima consegue transitar esses tokens até um Brand Owner final. O grande benefício é que o Blockchain funciona como um cartório digital, então é possível garantir que toda nota de crédito de reciclagem que entre nela seja única. Além disso, a organização está trabalhando com a ONG Recicleiros, que constrói as cooperativas, treinam essas pessoas e as auxiliam até em treinamentos comerciais, para a venda desses materiais.

“Estamos criando um ecossistema de verdade, que envolve toda a cadeia. Queremos muitos fornecedores, inclusive concorrentes, clientes e clientes de clientes, somente assim vira uma grande rede. Já temos um MVP e, em outubro, vamos disponibilizar alguns projetos-piloto para testes. Posteriormente, vamos voltar nossa atenção para avaliar como o reciclado foi vendido e se ele retornou à indústria, senão não temos a Economia Circular”, finaliza Cavalheri.

Gustavo Santos, da Voss Automotive, falou sobre como a engenharia de desenvolvimento pode auxiliar na economia do produto. “É preciso criar algo já pensando na sua destinação final, ou seja, pensar em ecodesign”. A Voss Automotive tem uma preocupação muito grande, principalmente sobre reciclagem e descarte.

“Quando há um grande conhecimento do produto e de todo o processo dele, é possível entendê-lo melhor e fazer todo o processo de descarte e reciclagem corretamente. Hoje, dentro de uma cadeia automotiva, temos sistemas que computam todos os materiais utilizados. Isso facilita bastante no momento de descarte da Indústria”, conta Santos.

O representante dos Correios do Brasil, Odarci Roque, falou sobre a adaptação de RFID dos Correios. “Hoje, é usado código de barras para rastreamento, o que gera dificuldades, pois é preciso interação física e identificação individual do objeto, o que toma tempo e gera custos. Estamos trabalhando em um projeto para a automação dos processos e de cargas com RFID. É um projeto feito no Brasil, mas que vai ser espalhado para o mundo. Vamos fazer o monitoramento das entradas e saídas de todos os centros operacionais dos Correios. Vão ser instalados, aproximadamente, 2.400 pontos de leitura. Com isso, vamos reduzir tempo e custos, facilitar processos, criar massa de informação importante para melhorias de processo, marketing etc. A informação vai permear entre todos os componentes da cadeia”, detalha Roque.

Murilo Morais, da Siemens, falou sobre as mudanças da Indústria e da sociedade com a transformação digital. “A Siemens criou a plataforma aberta MindSphere, que une Cloud e IoT em um ecossistema que permite a transição de dados e informações cada vez mais eficientes. São aplicações que geram insights e contribuem para decisões mais rápidas. Além disso, começamos a promover Hackathons com foco na indústria alimentícia. Trazemos os clientes e desafios, e o objetivo é entregar uma solução. Com todas as mudanças que estão acontecendo, precisamos pensar em ecoprodutos”, detalha Morais.

Flex Brasil implementa economia circular e não gera nada de lixo para o país

Na segunda parte do evento, Carlos Ohde, diretor de inovação da Flex, falou sobre a experiência prática da empresa para a implantação da economia circular no Brasil. A Flex é uma empresa internacional e, apenas aqui no país, conta com 10 mil colaboradores trabalhando em três sites.

“Temos o maior orgulho em dizer que temos uma unidade de reciclagem que tem como saída 0 lixo. Isso é parte de um ecossistema criado para entender como damos conta do próprio lixo gerado. Fizemos isso estudando todos os componentes de nossas lixeiras, justamente para transformar o lixo eletrônico de hoje na matéria-prima de amanhã”, conta Ohde.

Antes de qualquer coisa, é preciso entender que a economia circular vai muito além de reciclagem. É preciso pensar em como eliminar os desperdícios e os bons impactos que isso pode gerar na sociedade e no meio ambiente.

“A economia circular se contrapõe à economia linear, na qual estamos acostumados. A indústria que vai reciclar, reparar e reusar contribui para menos desperdício, poluição, energia e emissão. É preciso mudar e repensar tudo, pois a população está crescendo e os recursos ficando escassos. Têm materiais e elementos do meio ambiente que vão se esgotar”, argumenta Ohde.

A Flex montou um centro de excelência no Brasil, o Sinctronics, que é referência mundial e já conquistou diversos prêmios. Isso é possível porque aqui é um dos poucos países que conta com centros de pesquisa, universidades, manufatura, centros de distribuição, varejo, um grande centro comercial e, por fim, uma logística reversa e de reciclagem tão próximos e de fácil acesso.

“A economia circular é uma mudança de conceitos e nasce de uma intenção corporativa estratégica. É preciso pensar de maneira global. Podemos afirmar que o lixo é um erro de design, então, precisamos pensar em novos designs para conseguir reutilizá-los. O primeiro passo da Flex foi passar o lixo como matéria-prima. Estudamos todos os resíduos da fábrica e achamos soluções para todos eles. Por isso, hoje somos 0 lixo, usamos os materiais reciclados em novos produtos e, o mais importante, mantemos a qualidade do material virgem”, detalha Ohde.

Todos esses avanços só foram possíveis graças à cooperação entre empresas. Tudo que a Flex faz é em parceria com seus clientes. Os números impressionam: são 840 toneladas de plástico reinseridas na cadeia produtiva, 4.655 toneladas de materiais que não foram produzidos internamente. Além disso, a economia gerada com a matéria reciclada é de 70% e a redução de emissão de 65%, aproximadamente.

“Hoje, são 230 profissionais envolvidos na parte de reciclagem da Flex. Ao todo, realizamos 33 mil coletas por ano. Não fazemos economia circular pensando apenas no meio ambiente, mas para trazer mais eficiência, evitar desperdícios e gerar economia. É um grande orgulho dizer que não geramos lixo em momento algum da cadeia e que temos um case que é referência mundial”, finaliza.

Como o uso de tecnologias digitais pode viabilizar processos circulares

Encerrando as apresentações do simpósio, Vinícius Picanço, professor da USP e Insper, falou sobre um novo paradigma de produção e de consumo. “Pensamos na economia circular para atacar um problema. Temos, cada vez mais, produtos com alta complexidade, volume maior de produtos e uma série de processos que envolvem esses produtos. O que estamos fazendo com os oceanos beira a uma tragédia. Se continuarmos assim, teremos mais plástico do que peixe em 2050. A terra é um sistema fechado e com limites”, comenta.

E economia circular não é apenas uma coisa. A ideia é construir em cima desse tipo de economia seguindo três princípios: tudo que entra no sistema precisa ser limpo e abundante, criar um banco circular – biológico e técnico, e introduzir sistemas regenerativos, com zero desperdício. “No nosso mundo, precisamos tentar minimizar as perdas. Podemos dizer que existem quatro formas de circularidade: quanto mais interno for o ciclo, mais valor conseguimos extrair; ciclos mais longos, fazendo com que os ativos permaneçam por mais tempo; uso em cascada, com diversificação de reuso; e uso de insumos puros, com produtos não contaminados. Pensando nisso, é preciso entender os desafios para, aí sim, definir as tecnologias mais adequadas. Para finalizar, diria que toda a cadeia precisa estar fechada para fazer economia circular. Não dá para pensar de maneira individualizada”, conclui Picanço.

Confira algumas fotos do evento: