Quem hoje compra uma máquina de secar ou um carro está a adquirir diversos tipos de hardware e software para poder utilizar várias funções especiais do equipamento. Isso pode ser confortável. No entanto, esse desenvolvimento também significa mais poluição para o meio ambiente, com ainda mais lixo eletrônico sendo descartado no futuro.

Como os desenvolvedores de produtos estão adicionando componentes eletrônicos cada vez mais dispositivos do dia a dia, devemos esperar uma quantidade ainda maior de lixo eletrônico no futuro. A eletrificação de veículos, por exemplo, requer a recuperação de metais raros de baterias velhas.

Além disso, é de se esperar que a quantidade de lixo eletrônico aumente significativamente, principalmente nos países em desenvolvimento, pois com o aumento do poder aquisitivo, aumenta também a necessidade de aparelhos de alto desempenho. Até agora, de acordo com a ONU, apenas 20% do lixo elétrico e eletrônico foi coletado e reciclado em todo o mundo. A taxa de reciclagem ainda é  mais alta na Europa, 35%. O pior, no entanto, é que os dispositivos elétricos, muitas vezes, não são descartados de maneira ambientalmente correta.

Resíduos eletrônicos com um valor material muito alto

No caso dos aparelhos eletrônicos, os resultados atualmente são insatisfatórios. Um estudo do Fórum Econômico Mundial e da ONU calcula um total de lixo eletrônico de 50 milhões de toneladas anuais com um valor material de 50 bilhões de euros. Isso se relaciona em grande medida com ligas à base de ferro, cobre, ouro e também plástico. Outros valores estão contidos em ligas de alumínio, paládio e prata.

Para fechar os ciclos e ser capaz de reutilizar materiais ou recicláveis com a maior frequência possível, deve-se primeiro repensar o desenvolvimento do produto. Isso também se aplica à maneira como usamos um produto, que deve ser projetado para atender aos requisitos de uso, bem como a mais pura separação possível em seus componentes em frações de materiais recicláveis. No final da fase de uso mais longa possível, um produto deve ser alterado o mínimo possível e apenas o necessário para que seus componentes possam ser realimentados no ciclo do material. No entanto, os dispositivos eletrônicos tendem a ter vida curta e ser cada vez mais difíceis de consertar.

Em geral, as seguintes regras básicas se aplicam à criação de valor circular: um produto amplamente reciclável, que contém componentes recicláveis,

consiste em materiais duráveis, possui elementos de conexão destacáveis,

permite fácil desmontagem e intercambialidade de seus componentes,

com o mínimo de materiais diferentes possíveis e que é, na melhor das hipóteses, fornecido com componentes padronizados.

As diretrizes podem nos ajudar, mostrando-nos como projetamos dispositivos eletrônicos em termos de criação de valor circular e como os reciclamos com eficiência e de maneira ecologicamente correta; por exemplo, a série de diretrizes VDI 2343, chamada “Reciclagem de dispositivos elétricos e eletrônicos”. Também deve ser possível descartar adequadamente os componentes tóxicos.

Melhore o rendimento otimizando os sistemas de trituração

Muitos dispositivos, como smartphones, laptops e computadores, contêm metais valiosos que geralmente estão contidos apenas em pequenas quantidades. Por exemplo, uma tonelada de smartphones contém 250 gramas de ouro. Porém, isso corresponde a 50 toneladas de minério de ouro, do qual o ouro deve ser extraído com alto aproveitamento de recursos e alta poluição ambiental.

Para reciclar o ouro, muitas vezes não é suficiente esmagar mecanicamente todo o equipamento antigo e depois separá-lo em frações. Isso ocorre porque os metais valiosos terminam em frações das quais não podem mais ser recuperados.

O rendimento pode ser melhorado com a otimização dos sistemas de trituração e tecnologias de classificação. Partes de componentes especiais, como placas de circuito, também podem ser desmontados antes da trituração mecânica. No entanto, ainda há necessidade de pesquisas nesta área.

Métodos digitais suportam reciclagem

O uso de métodos digitais pode fornecer uma visão geral de como são os fluxos globais de materiais. Isso facilitou a organização da coleta e da reciclagem. A impressão 3D, por exemplo, é adequada para a produção de peças de reposição para que os dispositivos possam ser reparados com mais facilidade. Os incentivos políticos também podem ajudar a superar os custos de investimento em usinas de reciclagem eficientes.

Logística reversa e reciclagem de materiais eletrônicos no Brasil

Para Carlos Ohde, diretor de Inovação e Novos Empreendimentos na Flex, em questão de diretrizes sobre reciclagem de materiais eletrônicos e logística reversa, o Brasil está seguindo boas práticas internacionais, porém, ainda há um longo caminho a ser percorrido.

“As diretrizes são consistentes, a Green Eletron, gestora fundada pela Abinee também faz um bom trabalho neste sentido. No entanto, é muito cedo para afirmar que os resultados são satisfatórios. O conceito de responsabilidade compartilhada pressupõe a participação dos fabricantes,  governo, varejistas e consumidores. Uma falha em um dos elos dessa cadeia, significa uma falha do processo como um todo. Por isso, eu acredito que, além das regras de logística reversa e reciclagem, deve-se também incentivar modelos de negócio mais sustentáveis. A ideia de produto como serviço (PaaS) é uma alternativa em que o consumidor tem acesso ao serviço, mas o produto continua pertencendo ao fornecedor. Isso muda completamente a lógica do design, que irá preferir equipamentos mais duráveis e a logística reversa faz parte do modelo de negócio” afirma Ohde.

A Flex é uma empresa pioneira em processos de fabricação circular que está tornando a indústria de tecnologia da informação mais verde e sustentável.  Em relação ao mercado nacional como um todo, Ohde acredita que “são necessários modelos sustentáveis que possam ser seguidos. Na Flex, nós trabalhamos há vários anos para criar um desses modelos. Existem outros em outros segmentos de mercado. Quanto mais, melhor. A multiplicação de iniciativas permitirá aos consumidores escolher melhor, ao governo legislar e fiscalizar melhor e ao mercado como um todo aumentar a eficiência por conta de ganhos de escala e produtividade”.

Neutralizar os impactos negativos no meio ambiente é uma das pautas prioritárias na indústria. Para conhecer mais ações que estão sendo realizadas com o objetivo de contribuir com a preservação do planeta, visite a sessão “Sustentabilidade” na Biblioteca VDI-Brasil.