6 de fevereiro de 2018

Soaria estranho, até pouco tempo atrás, ouvir que duas empresas concorrentes, como o Aché Laboratórios e a Eurofarma Laboratórios, vão trabalhar juntas em um projeto de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), certo? Mas é exatamente isso o que vai acontecer. Os dois laboratórios acabaram de se unir a uma unidade credenciada à Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) – o Centro de Química Medicinal de Inovação Aberta (Cqmed), da Unicamp – em uma parceria inédita dentro da indústria brasileira de fármacos, oficializada em 29 de janeiro.

O objetivo é pesquisar novas moléculas para o desenvolvimento de anti-infecciosos, como antibióticos e anti-parasitários, além de medicamentos para o tratamento de câncer. Para tanto, o projeto terá investimento de R$ 8,4 milhões. Cada farmacêutica investirá R$ 400 mil por ano, durante os próximos seis anos. Já a Embrapii financiará R$ 1,8 milhão por empresa com recursos não-reembolsáveis.

As vantagens deste tipo de parceria vão além da troca de experiências, conhecimentos e profissionais, envolvem a divisão de riscos, economia de recursos financeiros e diminuição da redundância na pesquisa. Mas ainda que a colaboração e os investimentos privados em P&D permitam aprimorar processos industriais e aumentar a competitividade, criando um ambiente para o surgimento de parceiros, no Brasil, ainda são poucas as empresas que investem em P&D.

“A grande maioria das empresas industriais brasileiras não possui centros de pesquisa e, por conseguinte, não desenvolvem PD&I. Em consequência, não sentem a necessidade de contratar pessoal qualificado para desenvolver projetos de pesquisa aplicada, investem muito pouco em PD&I e claramente, não produzem patentes”, comenta o diretor-presidente da Embrapii, Jorge Almeida Guimarães.

O pró-reitor de Pesquisa e Desenvolvimento da UniSociesc, Marcelo Teixeira dos Santos, lembra que: “Nos países europeus, em média, 80% dos doutores encontra-se em setores de desenvolvimento da indústria ao invés de estarem na universidade, como é no Brasil, ou seja, essa característica mostra que o combustível do motor da inovação, o conhecimento, está dentro da indústria, a ciência e a tecnologia são aplicadas diretamente na solução dos desafios da indústria”.

Indicadores

Os últimos indicadores divulgados pelo MCTI – de 2013 – mostram que a participação de empresas no dispêndio em P&D naquele ano foi de apenas 40% do total nacional. Na Alemanha, o percentual empresarial representou, no mesmo ano, 68% do total.
Também é tímido o número de patentes internacionais que as empresas no Brasil detêm.

Divulgação feita pela revista Pesquisa Fapesp, tratando exclusivamente de patentes obtidas por empresas, revelou que, de 2011 a 2015, para cada 10 mil pesquisadores empregados, as empresas do Brasil obtiveram 32 patentes no Escritório de Patentes dos EUA (USPTO). Para as empresas da Alemanha, os mesmos 10 mil pesquisadores criaram 648 patentes.

No Brasil, também há apenas 3 empresas (sendo a primeira uma multinacional) entre os 10 maiores solicitantes de patentes – os 7 restantes são universidades e institutos de pesquisa. Na Alemanha, entre os 10 maiores solicitantes, 9 são empresas.

“Hoje, é inviável produzir uma patente sem um conhecimento científico profundo, visando gerar um novo produto. A Embrapii nasce sabendo que as empresas pouco dispõem de centros de P&D. E, sem pesquisa, pouco se avança em inovação. Então, nossa missão básica é contornar as dificuldades adotando um modelo diferenciado de atuação para incentivar e fomentar PD&I na indústria brasileira, envolvendo o setor acadêmico qualificado capaz de oferecer ao segmento industrial competência técnico-científica para atender demandas de pesquisa aplicada das empresas”, ressalta Guimarães.

Conforme reforça o pró-reitor de P&D da UniSociesc, para que a indústria brasileira tenha possibilidade de sobreviver nos próximos anos, seu investimento em PD&I precisa crescer. “É uma questão de independência científica e tecnológica, ou continuaremos exportando café a R$ 8 por quilograma e importando cápsulas de café ao custo de R$ 800 por quilo!”, alerta.

Mudança à vista?

As crises econômica, política e ética instaladas no Brasil nos últimos anos, a complexidade tributária e os altos custos trabalhistas, por exemplo, compõem um ambiente hostil para o crescimento dos investimentos privados em PD&I. Contudo, é necessário ter em mente que a recuperação econômica depende, em boa medida, da habilidade de inovar e da eficiência na gestão de projetos industriais, em busca de competitividade.

Como mostra o exemplo do Aché e da Eurofarma, os investimentos em P&D e na cooperação por meio da inovação aberta são fundamentais, seja através de colaboração externa ou de equipes próprias que criam novas áreas de negócios.

Uma pesquisa de outubro de 2017, da assessoria Altivia Ventures, especializada em aconselhamento para fusões e aquisições, revelou que há 87 empresas no País com programas de corporate venture, sobretudo de setores que tradicionalmente já investem em P&D, como as indústrias química e farmacêutica e as de tecnologia.

E como estão os investimentos em PD&I na sua empresa? Participe do Cluster Produtividade Industrial da VDI-Brasil, no qual engenheiros experientes e em cargos de liderança expõem suas experiências e juntos pensam em ações que podem ser adotadas por toda a indústria.