Nas últimas décadas, o Brasil vem enfrentando um processo silencioso, mas profundo, de desindustrialização. A participação da indústria de transformação no PIB nacional caiu de 25% nos anos 1980 para menos de 11% nos últimos anos, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Esse movimento tem impactos diretos sobre a produtividade, a inovação e a geração de empregos qualificados no país.
Recentemente, um artigo da The Economist provocou debates ao afirmar que o crescimento de países em desenvolvimento não precisa, necessariamente, passar pela industrialização. O argumento central é de que os serviços e o consumo interno podem impulsionar o crescimento econômico mesmo em países com base industrial fraca. No entanto, essa tese ignora um ponto fundamental: os países que mais se desenvolveram nas últimas décadas mantiveram ou fortaleceram sua base manufatureira como núcleo de inovação, produtividade e soberania tecnológica.
A Alemanha é um exemplo emblemático. Apesar de ter uma economia fortemente baseada em serviços, o país nunca abandonou sua indústria — ao contrário, investiu em digitalização, automação e inovação. O resultado é um setor manufatureiro robusto, conectado com a Indústria 4.0, e resiliente às mudanças de cenário global. O mesmo pode ser dito da Coreia do Sul, que apostou fortemente em tecnologia e manufatura de ponta para alcançar o patamar de país desenvolvido.
Ao tratar a indústria como um fardo ou um estágio superado do desenvolvimento, corremos o risco de comprometer a capacidade do Brasil de gerar empregos qualificados, fomentar a inovação local e reduzir a dependência externa em setores estratégicos. Isso é particularmente grave em um mundo que caminha para uma nova reorganização produtiva global, em que países buscam mais autonomia tecnológica e cadeias de suprimento mais curtas e seguras.
Além disso, a indústria é o setor que mais contribui para o avanço da produtividade no longo prazo, pois exige investimentos em pesquisa, desenvolvimento, processos e qualificação de mão de obra. Os ganhos de produtividade gerados pela indústria se espalham por toda a economia — inclusive nos serviços.
Portanto, o dilema não é entre indústria e serviços, mas entre dependência e protagonismo. A reindustrialização, apoiada por políticas de inovação, educação técnica e transformação digital, é uma estratégia essencial para que o Brasil ocupe um lugar relevante nas cadeias globais de valor e retome o crescimento sustentável.
Conclusão: desindustrializar é abrir mão do futuro
Desindustrializar não é modernizar — é abrir mão do futuro. A urgência está em enxergar a indústria como parte da solução para os desafios do desenvolvimento e não como um vestígio do passado.