A competitividade industrial de um país já não depende apenas de sua capacidade de produzir internamente. No século XXI, produzir bem é importante, mas produzir conectado é essencial.
É nesse contexto que surgem as Cadeias Globais de Valor (CGVs), estruturas produtivas fragmentadas internacionalmente, nas quais diferentes etapas de um mesmo produto são realizadas em países distintos, de acordo com vantagens logísticas, tecnológicas, regulatórias e econômicas. Participar dessas cadeias é sinônimo de inserção no comércio internacional, acesso a mercados sofisticados e atração de investimentos.
Para o Brasil, no entanto, essa inserção não depende apenas de escala produtiva. Ela exige, sobretudo, previsibilidade econômica, redução de custos estruturais e instrumentos que preservem a competitividade da indústria nacional em um cenário global cada vez mais disputado.
O que são Cadeias Globais de Valor?
As Cadeias Globais de Valor descrevem o processo pelo qual um bem ou serviço é concebido, desenvolvido, produzido, distribuído e comercializado de forma geograficamente dispersa. Um único produto pode envolver dezenas de países, cada um contribuindo com partes, componentes, tecnologia, mão de obra especializada ou serviços de alto valor agregado.
Esse modelo se consolidou nas últimas décadas com a globalização, a redução dos custos logísticos e a abertura comercial. Porém, nos últimos anos, ele vem passando por um profundo redesenho.
Reshoring e Nearshoring: o redesenho das cadeias globais
O que são?
- Reshoring é o movimento de retorno da produção para o país de origem da empresa, reduzindo a dependência de cadeias longas e distantes.
- Nearshoring consiste na realocação da produção para países geograficamente mais próximos dos mercados consumidores finais, encurtando distâncias, prazos e riscos.
Por que esses movimentos ganharam força?
Tensões geopolíticas, disputas comerciais, a pandemia da Covid-19 e conflitos regionais expuseram a fragilidade de cadeias excessivamente longas e concentradas. Como resposta, empresas e governos passaram a priorizar resiliência, previsibilidade e segurança de abastecimento, mesmo que isso implique custos unitários ligeiramente mais elevados.
Esse novo mapa da produção global abriu oportunidades para países capazes de oferecer ambiente econômico estável, infraestrutura adequada e políticas industriais coerentes. É nesse ponto que o Brasil enfrenta seus maiores desafios.
O papel dos incentivos fiscais na competitividade industrial
Incentivos fiscais não são exceções ao sistema econômico. Eles são ferramentas estratégicas de política industrial, amplamente utilizadas por países desenvolvidos e emergentes para sustentar sua presença nas Cadeias Globais de Valor.
Entre seus principais efeitos estão:
- Redução dos custos de produção, especialmente em setores intensivos em capital e tecnologia;
- Maior atratividade das exportações, ao neutralizar desvantagens estruturais internas;
- Estímulo à inovação, à pesquisa e à agregação de valor local.
No Brasil, onde o chamado “Custo Brasil” segue elevado, os incentivos funcionam como mecanismos de equilíbrio competitivo. Cortes abruptos ou lineares fragilizam essa equação e podem comprometer a posição do país em cadeias produtivas estratégicas.
Nesse contexto, ganha relevância a Lei da Reciprocidade Econômica, já abordada pela VDI, que busca equilibrar o jogo internacional ao oferecer condições equivalentes às praticadas por outros países, reforçando a posição brasileira nas cadeias globais de valor.
Os riscos da redução de incentivos fiscais
A redução indiscriminada de incentivos fiscais não afeta apenas empresas isoladas. Seus impactos são sistêmicos.
Entre os principais riscos estão:
- Aumento imediato dos custos industriais, reduzindo margens e competitividade;
- Perda de atratividade para investimentos externos, especialmente em um momento de reconfiguração das cadeias globais;
- Redução da capacidade exportadora, com impacto direto na balança comercial e no nível de emprego industrial.
Em um cenário global marcado por reshoring e nearshoring, países que não oferecem previsibilidade regulatória e econômica tendem a ser preteridos nas decisões de localização de novas plantas e centros produtivos.
O exemplo da indústria aeroespacial
Poucos setores ilustram tão bem o funcionamento das Cadeias Globais de Valor quanto a indústria aeroespacial.
O caso Embraer
Um jato comercial da Embraer é, por definição, um produto global. As asas podem ser projetadas no Brasil, os motores vêm dos Estados Unidos, a aviônica da Europa, enquanto a integração final ocorre novamente em solo brasileiro. Cada etapa agrega conhecimento, tecnologia e valor, distribuídos ao longo de vários países.
O papel do Estado
Sem regimes aduaneiros especiais, como o Drawback, e sem incentivos à exportação, o custo de importar milhares de componentes de alta complexidade tornaria a aeronave brasileira inviável no mercado internacional. Nesse caso, o incentivo fiscal não é um privilégio, mas uma condição de existência da cadeia produtiva.
A competitividade da Embraer, e de diversos outros setores estratégico, depende diretamente da capacidade do país de oferecer instrumentos que permitam essa integração global.
Conclusão
As Cadeias Globais de Valor definem quem participa, quem lidera e quem fica à margem da economia mundial. Para o Brasil, a questão central não é apenas produzir mais, mas produzir integrado ao mundo.
Incentivos fiscais, previsibilidade econômica e políticas industriais consistentes não são obstáculos ao desenvolvimento. Pelo contrário, são alavancas essenciais para garantir que a indústria nacional continue relevante.
Sem esses instrumentos, o risco é claro: perder espaço justamente quando o mundo redesenha suas cadeias produtivas.