A implementação de novas ferramentas, que fornecem ao gestor uma visão holística de cada elemento da fábrica, marcou uma nova revolução na indústria no início desta década. Apesar de ser relativamente recente, a transformação digital já apresenta resultados positivos em diferentes campos, entre eles, o da construção civil.

Assim como no setor industrial, a digitalização, possibilitada pela aplicação de tecnologias, demonstrou um grande potencial para a construção civil, originando um novo estágio na área. Em 1982, quando o software AutoCAD foi lançado, um leque de oportunidades surgiu com a possibilidade de criar um arquivo digital com projetos eletrônicos. Posteriormente, esses documentos passaram a ter versões em 3D, marcando um grande avanço na área. Seguindo a evolução na engenharia civil, chegamos, de fato, à era da digitalização das construções, em que cada item presente no projeto possui dados integrados, que podem ser analisados por todos os profissionais envolvidos. Essa forma de trabalhar é chamada de Building Information Modelling – BIM – ou Modelagem da Informação da Construção.

O BIM é uma das principais tecnologias que compõem essa nova fase das construções. Relacionando a construção civil às práticas da Indústria 4.0, o modelo BIM corresponde ao gêmeo digital de um edifício. Em resumo, trata-se de uma construção digital em que cada ação realizada está registrada e pode ser acessada virtualmente de qualquer lugar. Não só as informações geométricas – como a altura, o comprimento e a espessura de uma parede, por exemplo – estão presentes no BIM, como também dados relacionados ao planejamento, custos, cronograma, material, peso por metro quadrado e outros aspectos que tornam a execução muito mais precisa, assertiva e rápida. Uma das vantagens do BIM se dá na colaboração de profissionais de diferentes áreas, como arquitetos, engenheiros e empreiteiros, pois todos trabalham no mesmo modelo digital.


O papel das tecnologias em construções históricas

No mês de abril deste ano, o mundo presenciou o incêndio na histórica Catedral de Notre Dame, em Paris, que destruiu partes consideráveis do edifício, incluindo a emblemática agulha central, item característico da arquitetura gótica.

Em meio a um cenário como esse, muitas tecnologias que estão presentes na Indústria 4.0 e, consequentemente, na engenharia civil, demonstram um forte potencial para contribuir com a reconstrução da catedral. Ferramentas como drones, impressão 3D e escaneamento a laser estão desempenhando um papel importante no resgate da Notre Dame.

Em 2010, o historiador da arte Andrew Tallon catalogou a catedral utilizando um scanner 3D, criando uma nuvem de pontos e imagens detalhadas e de alta resolução. A partir disso, foi possível desenvolver um modelo 3D do edifício com uma precisão de até 5 milímetros. O projeto de Tallon pode servir de base em diferentes aspectos na restruturação da catedral.

Além da torre central, as gárgulas e quimeras também foram destruídas pelas chamas. A solução para a reconstrução das esculturas pode ser encontrada em impressões 3D. A Concr3de, uma empresa holandesa especializada em impressão 3D para construções, afirma que é possível imprimir réplicas perfeitas das estátuas, utilizando as cinzas das peças originais e cascalhos de calcário, mantendo a sua originalidade. Para esse trabalho, os modelos catalogados por Tallon seriam essenciais na execução. No entanto, o governo francês anunciou que irá utilizar modos tradicionais para reprodução, com artesãos e escultores.

O Prof. Eduardo Toledo, do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da USP, destacou o papel que o BIM pode desempenhar para esses casos. “Estamos falando de obra que começou a ser construída no século XII e, obviamente, as ferramentas da época não permitiam tais implementações, mas agora surge o desafio de estudar como utilizar a tecnologia para a reconstrução de um edifício histórico como a catedral de Notre Dame, com materiais modernos e, nesse sentido, o BIM pode ser extremamente importante” afirma Toledo.

 

BIM no Brasil

Devido à crise no setor da construção civil no Brasil, que se iniciou a partir de 2014, motivada por questões políticas e econômicas, a presença do BIM sofreu uma queda com a redução de obras do país. Para reverter esse panorama, no ano passado, o Governo Federal anunciou a Estratégia BIM BR. O intuito é promover um ambiente adequado para o investimento no BIM e sua difusão no país.

O documento cita os objetivos específicos, indicadores e metas, além de traçar um roadmap com as ações a serem tomadas e os resultados esperados. São listados nove objetivos específicos: difundir o conceito BIM e seus benefícios, coordenar a estruturação do setor público para a adoção do BIM, criar condições favoráveis para o investimento público e privado em BIM, estimular a capacitação em BIM, propor atos normativos que estabeleçam parâmetros para as compras e as contratações públicas com o uso do BIM, desenvolver normas técnicas, guias e protocolos específicos para a adoção do BIM, desenvolver a plataforma e a biblioteca nacional BIM, estimular o desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias relacionadas ao BIM, e incentivar a concorrência no mercado por meio de padrões neutros de interoperabilidade BIM.

Com a aplicação de ações focadas nesses objetivos, espera-se um aumento em produtividade das empresas em 10%, redução de custos em 9,7% e elevação de 28,9% do PIB da construção civil.

Sobre a implementação do BIM no Brasil, Toledo afirma, ainda, que “nosso nível de adoção no setor é de menos de 10%. Esse número não representa falta de competência interna, mas sim um medo de investimento em novas práticas. Mesmo após a crise, algumas empresas continuaram investindo no BIM e, hoje, estão relativamente avançadas em sua utilização. A esperança é de que, com a estratégia do governo de disseminação do BIM, os resultados melhorem”, finaliza Toledo.