Este é o segundo artigo da série “Engenheiros de Projetos Internacionais”; para conferir o primeiro texto, clique aqui.

Para entender melhor as especificidades da atuação de engenheiros com projetos internacionais, realizamos uma pesquisa com as empresas associadas à VDI-Brasil, com questões específicas que possibilitaram uma segmentação entre os tipos de profissionais, sendo eles: policêntrico, geocêntrico, etnocêntrico, regiocêntrico.

Neste artigo, falaremos sobre a base para essa pesquisa: a diretriz VDI 6601. No documento são descritas as habilidades e características especiais que um engenheiro deve ter para manter, com êxito, a posição de gerente de projeto ou especialista em gerenciamento de projetos em trabalhos internacionais em negócios e tecnologia, ciência e administração. Além disso, traremos uma entrevista com Paulo Iamada, que atua como gerente de estratégia, excelência empresarial, gestão da qualidade e EHS na Siemens Energy no Brasil.

Diretriz VDI 6601 – Perfil do Engenheiro de Projetos Internacionais

A diretriz VDI 6601, elaborada na Alemanha, é um guia prático que descreve qual conteúdo deve ser observado em projetos internacionais, quais ferramentas podem ser usadas para apoiar o trabalho diário, além das recomendações para o design da estrutura desses projetos.

O documento fornece orientação para engenheiros que trabalham em projetos internacionais, para desenvolvedores de recursos humanos, bem como para empreendedores, proprietários e gerentes. Pode ser usada independentemente do setor no ambiente técnico e econômico em pequenas, médias e grandes empresas.

O ponto de partida para a preparação dessa diretriz é a determinação de que, atualmente, não há uma descrição de cargo ou requisitos claramente formulados e definidos para os engenheiros de projetos internacionais.

No trabalho em projetos internacionais, o engenheiro coordenador deve ter habilidades de gerenciamento e liderança, e desenvolturas sociais, técnico-metódicas e pessoais, como adaptabilidade e abertura a outras culturas. É necessário também a ampliação de seus padrões de comportamento.

A base para o cumprimento de suas tarefas é a combinação de competência e qualificação comprovadas em gerenciamento de projetos com qualificação específica acima da média, uma vez que aumentam as demandas sobre a pessoa no escopo de projetos internacionais.

Para saber mais sobre a diretriz, clique aqui.

Atuação na prática

Paulo Iamada, gerente de estratégia, excelência empresarial, gestão da qualidade e EHS na Siemens, se encaixa no perfil estratégico Geocêntrico – sem consideração de nacionalidade – e coordenou, por três anos, a avaliação do Footprint Global de manufatura para equipamentos de geração de energia.

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Quais são os principais desafios ao coordenar um time com profissionais de diferentes países? 

R: O principal desafio é construir uma relação de confiança entre os stakeholders com bagagens culturais muito diversas.

Outros pontos – que aparentemente são simples – podem se tornar desafiadores e comprometer o andamento do projeto. Alguns deles, encontramos no momento atual, devido à pandemia do COVID-19: muitas reuniões online, às vezes sem nunca ter visto a pessoa presencialmente, fusos horários em projetos com membros em diversos continentes e colaboradores com diferentes gestores e prioridades.

As diferenças culturais têm grande impacto no projeto?

R: Sem dúvida alguma, as diferenças culturais podem impactar diretamente no sucesso do projeto.

Pesquisar para conhecer melhor, aceitar e se adaptar é ponto chave em qualquer relação internacional. Cultura não se limita aos aspectos profissionais, como vestimentas, pronomes de tratamento ou pontualidade em reuniões. Todos os fatores devem ser considerados, sejam de aspecto pessoal ou profissional.

Um exemplo simples: jantar de negócios com um indiano ou marroquino, sem consultar a religião dos participantes, tem um potencial muito grande de ser um fracasso, devido às restrições de alimentos, como carnes bovinas ou suínas, e horários, como o ramadã.

Quais são as características indispensáveis para um coordenador de projetos internacionais?

R: Independentemente das habilidades técnicas, algumas soft skills são essenciais para um líder de projetos internacionais.

Uma comunicação assertiva para cada tipo de público, evitando ao máximo interpretações pessoais; excelente relacionamento interpessoal, mesmo à distância; e muita resiliência serão indispensáveis na condução do projeto.

Na sua opinião, as universidades preparam os engenheiros para atuarem em times internacionais? O que pode ser melhorado nesse sentido? 

R: Tive a oportunidade de estudar em três universidades brasileiras, sendo duas públicas e uma particular e todas formam excelentes profissionais para trabalhar em empresas locais. No entanto, falta preparação para atuar em times internacionais, sem mencionar a falta de incentivo aos jovens empreendedores.

Intercâmbio com universidades estrangeiras ou bolsas de estudo no exterior atingem um público muito pequeno e são de custo muito alto, embora sejam ações positivas.

As universidades poderiam incentivar uma maior quantidade de projetos em grupo. Seminários com apresentações para públicos variados e empresas júnior são alguns exemplos que desenvolvem soft skills importantes para futuros engenheiros; sem mencionar a maior utilização do idioma inglês.

Qual o principal aprendizado obtido neste tipo de projeto?

R: Embora pareça lugar comum, o maior aprendizado em projetos internacionais é pessoal.

O crescimento profissional é inquestionável, mas as oportunidades de conhecer outras culturas, pessoas e lugares são recompensadoras e mudam a perspectiva de enxergar o mundo.