Muito se tem falado sobre a transformação que a inteligência artificial tem promovido em diferentes segmentos de mercado. Os hoje conhecidos LLMs (Large Language Models) serviram para popularizar inclusive uma compreensão maior das capacidades de uma inteligência artificial. Nas operações industriais não é diferente.
Controles de máquinas baseados em inteligência artificial já são realidade. O uso de modelos de linguagem para a digitalização da manufatura enxuta também. Tudo isso em um contexto em que a utilização de sistemas e a capacidade de integração de softwares complexos, diretamente nas máquinas, se tornam possíveis. Isso ocorre tanto por habilitadores tecnológicos, como dispositivos IoT modernos com alta conectividade, quanto pela evolução de padrões de engenharia, como o IEC 61499, que possibilita o uso de softwares desenvolvidos em linguagens de baixo nível diretamente em function blocks de automação.
Adicionalmente, a ampla disponibilidade de softwares open source representa uma oportunidade crucial para acelerar a adoção tecnológica, o crescimento do setor e o surgimento de novos players no mercado.
Nesse horizonte, a consolidação das Software-Defined Facilities (SDF), ou Instalações Definidas por Software, desponta como o próximo passo lógico desse ecossistema. O conceito trata da dissociação completa entre a camada lógica de controle e a infraestrutura física de hardware proprietário para uma orquestração completa da Indústria feita por software. Inspirada pela virtualização de TI, uma SDF transforma os tradicionais CLPs e SDCDs (Sistemas Digitais de Controle Distribuído), historicamente vistos como caixas-preta travadas por fabricantes, em infraestrutura básica de execução. A inteligência passa a residir em CLPs virtuais rodando em servidores COTS (Commercial Off-The-Shelf, ou Computadores Padrão de Mercado), garantindo flexibilidade e redundância instantânea, possibilitando uma visão holística de todo o processo diretamente na tela de um computador ou tablet.
Essa quebra de paradigma foi materializada na prática pela Aimirim no caso da BAT, onde a integração de processos horizontais e verticais elevou a planta ao status de uma autêntica SDF. O ecossistema Tupana unifica dispositivos de múltiplos fabricantes sob o mesmo tecido lógico por meio de uma plataforma de orquestração na borda, agnóstica ao hardware. Na prática, isso viabiliza a reconfiguração de linhas de produção via software em minutos, além de alinhar a comunicação e o controle de diferentes setores a um objetivo centralizado para máxima eficiência e estabilidade.
Human in the loop: como a tecnologia está conversando com as pessoas?
Neste cenário, surge uma dúvida inevitável: qual será o papel humano diante da adoção acelerada de tecnologias de Inteligência Artificial? Seria a IA uma vilã ou uma amiga?
Longe de ser uma ameaça, a IA desponta como uma aliada estratégica para resolver problemas complexos da atualidade. A Europa, por exemplo, prevê uma aposentadoria em massa de profissionais industriais nos próximos dez anos. Ao passo que a geração Z não demonstra o mesmo interesse que seus antecessores pelos ofícios tradicionais e pela interação direta com equipamentos. Diante dessa escassez de mão de obra, a pergunta central muda: como a produção industrial será mantida?
Nessa conjuntura, a redução da interferência humana via IA deixa de ser uma escolha ética entre “vilã ou amiga” para se tornar uma necessidade vital de continuidade. É o caminho para reintegrar à produção industrial um novo perfil de trabalhador: o jovem digital. Para esse profissional, o valor não está na interação mecânica direta, mas no desenvolvimento, suporte e gestão das camadas de software que agora governam a produção.
Trata-se do conceito de Human-in-the-loop, onde o ser humano atua no centro do ciclo de tomada de decisões, supervisionando e validando as estratégias macro gerenciadas pela IA, enquanto a automação pesada lida com a variabilidade de milissegundos do processo.
Para viabilizar esse empoderamento, a Aimirim desenvolveu o sistema Shaman, uma interface que combina o conhecimento tácito dos especialistas seniores e histórico de máquina e os cruza com dados de processo em tempo real para fornecer as melhores escolhas de atuação para a operação. Portanto, a digitalização não se limita a automatizar processos, ela ressignifica o papel humano, garantindo que a indústria permaneça competitiva e atrativa para as próximas gerações.
Como habilitar ou acelerar essa transformação?
Enquanto players tradicionais se preparam para oferecer soluções a este mercado, a mudança do perfil profissional é acompanhada por uma transformação no comportamento decisório. Pela primeira vez, a geração Y (millennials) assume cadeiras estratégicas na cadeia de suprimentos, trazendo uma visão moderna e crítica sobre as aquisições corporativas e rejeitando a opacidade. Tal fator é lido como “Beyond the black-box”, ou em português, “além dos sistemas caixa-preta”. Esse cenário abre uma janela de oportunidade para as startups industriais. Alavancadas pela popularização de softwares open source, nuvem e inteligência artificial, essas empresas emergem como competidores ágeis, transparentes e abertos. Além disso, oferecem um custo de aquisição mais competitivo, atributos que ressoam diretamente com as expectativas dessa liderança moderna.
Para habilitar e acelerar essa transformação de forma prática, respondendo às demandas dessa nova liderança, a indústria precisa primeiro migrar de bancos de dados estáticos e PIMS (Sistemas de Gerenciamento de Informações de Processo) para um Industrial Data Fabric. Trata-se de uma malha dinâmica que resolve o maior gargalo da IA industrial: a falta de contexto semântico unificado entre a Automação Industrial e a Tecnologia da Informação. Esse desafio foi resolvido pelo Saripe, um produto desenvolvido pela Aimirim para eliminar silos crônicos de dados que impedem a padronização entre diferentes plantas industriais dentro de uma mesma empresa. Através de uma camada de observabilidade contínua na borda, a solução limpa e contextualiza variáveis operacionais diretamente na origem, garantindo integridade e agilidade ao processo.
Uma vez estruturado o dado, a aceleração da autonomia consolida-se através da IA de Malha Fechada. Ao contrário de painéis que apenas sugerem alertas, essa IA atua diretamente na camada de controle sem intervenção humana manual. A engenharia da Aimirim executa esse ciclo integrando a coleta do Saripe ao sistema Onar, um Gêmeo Digital do Processo baseado em VLMs (Vision-Language Models) que simula o comportamento físico da planta, e ao motor de decisão Arandu. O Arandu combina algoritmos de MPC (Controle Preditivo Baseado em Modelo) para estratégias complexas e MFAC (Controle Adaptativo Livre de Modelo) para malhas de autoaprendizado, alterando setpoints e controlando máquinas em tempo real para eliminar paradas crônicas e desvios.
IoT, computação na borda e IEC 61499
Na arquitetura de integração entre softwares e o chão de fábrica, a adoção de CLPs tornou-se o padrão. Contudo, com a transformação digital e a evolução tecnológica, surge uma nova oportunidade: servidores de borda (edge devices) integrados diretamente aos CLPs para acesso a dados industriais e atuação até mesmo em camadas supervisórias.
Nesse contexto, os CLPs passam a ser vistos como infraestrutura básica, abrindo caminho para uma camada superior de dispositivos IoT de alta conectividade, na borda. É a digitalização completa das operações industriais.
Somado a isso, o padrão IEC 61499 e seus frameworks abertos aceleram o desenvolvimento e a integração dessa arquitetura de software diretamente no maquinário industrial, permitindo a integração de informações de CLPs de diferentes vendors (fabricantes) e a interoperabilidade. Enquanto a norma tradicional IEC 61131-3 limita-se a uma varredura cíclica rígida e centralizada, a IEC 61499 introduz o Controle Distribuído orientado a eventos. Ela permite que os blocos lógicos
rodem fatiados entre múltiplos dispositivos e servidores de borda de forma transparente, quebrando o aprisionamento tecnológico.
Contudo, como a abertura dessas arquiteturas e o uso de dispositivos de borda conectados eliminam o perímetro físico tradicional das fábricas, a Resiliência Cibernética torna-se mandatória. A segurança não pode mais ser um “muro externo” adicionado à rede; ela deve fazer parte do DNA do software. A resposta contemporânea exige a implementação de arquiteturas Zero Trust ao nível dos contêineres dos dispositivos de borda, garantindo o princípio de Resilience by Design (Resiliência por Design): a planta protegida e operacional mesmo sob severa degradação de rede ou ataques.
Conclusão
Este momento de profunda transformação das cadeias de mercado é uma oportunidade ímpar de crescimento e diferenciação. A era dos “projetos-piloto” que nunca evoluem para uma escala de adoção real acabou, a adoção agora é massiva.
Em 2026, a agilidade operacional é a nova moeda de troca: os vencedores não são os que possuem as máquinas mais rápidas, mas os que reconfiguram sua produção via software em minutos. Organizações que ignorarem essa transição para as Software-Defined Facilities e para a IA de malha fechada ficarão obsoletas em pouco tempo. No ritmo atual, a inércia não é apenas um atraso tecnológico, é um risco real à sobrevivência do negócio.
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Renato Pacheco
CEO Aimirim
in: @renato-pacheco-silva