Os recentes avanços tecnológicos afetaram o conceito de produtos, transformando a maneira como as empresas os oferecem. Eles afetam não apenas a estrutura vertical nas empresas, mas horizontalmente em toda a cadeia de suprimentos, redefinindo o processo de criação de valor na rede de parceiros externos. Promove oportunidades de criação de valor intrínsecas à configuração dos Sistemas de Produto-Serviço, não sendo uma extensão, mas uma mudança fundamental nos futuros Modelos de Negócios.

Desse modo, o presente Webinar aborda a necessidade das empresas em compreender os conceitos relacionados a industria 4.0, para gerar e gerenciar oportunidades de valor disponíveis na rede de parceiros externos (ex.: cadeia de suprimentos), avançando na prática em sua integração horizontal.

1. Redes Heterogêneas

Com o avanço da tecnologia novas iniciativas surgiram no mercado, tornando possível o lançamento de inovadores produtos e serviços. Estas iniciativas preencheram necessidades dos consumidores, que em ocasiões eram inclusive desconhecidas por eles até o aparecimento da oferta, criando assim novas oportunidades de negócios. O resultado deste cenário é o aumento da heterogeneidade da rede de fornecedores, ou seja, um crescimento acelerado de diferentes soluções tecnológicas disponíveis na cadeia de suprimentos que podem ser então consideradas pelas empresas. Rede heterogênea caracteriza-se por ser uma rede que possui sistemas operacionais e protocolos com diferenças significativas em sua conjuntura entre os seus diferentes elementos. O resultado que temos aqui é um aumento da complexidade desta rede, trazendo novas dificuldades para as empresas em gerir, analisar e controlar sua rede de fornecedores, contudo trazendo também oportunidades intrínsecas a sua configuração.

O conceito de Sistemas de Produto-Serviço está a bastante tempo difundido na indústria, exemplos deles são serviços de manutenção após a venda do produto ou consultorias agregadas a entrega do produto. Uma Caldeira industrial pode ser ofertada ao cliente juntamente ao serviço de consultoria para sua instalação no local mais indicado do layout da fábrica. De acordo com (Goedkoop et al. 1999), Sistemas de Produto-Serviços são um conjunto comercializável de produtos e serviços capazes de atender conjuntamente às necessidades de um usuário. O destaque dentro deste contexto é como estes Sistemas de Produto-Serviço irão se atualizar, ampliar com relação as novas tecnologias no desenvolvimento da Indústria 4.0. E da mesma forma quais os conceitos de gestão que serão necessários. De acordo com Johannes Klingberg – Diretor Executivo da VDI-Brasil, “O entendimento da Indústria 4.0 é mais um entendimento de gestão, do que um entendimento propriamente de tecnologia”.

2. Integração Horizontal

A integração horizontal entre empresas não é um tópico novo. Empresas vem trabalhando nesta direção a muitos anos a partir de transferências eletrônicas de informação ou dados, utilizando diferentes plataformas de TI, sistemas ou até mesmo formas mais simples, como próprio e-mail. A questão aqui é como esta integração se adéqua ao conceito da Indústria 4.0, onde de acordo com Johannes Klingberg – Diretor Executivo da VDI- Brasil que afirma que “a transferência de informação, quando agrega valor ao ser transmitida, está então adequada ao conceito Indústria 4.0”. As empresas devem rever sua integração buscando este entendimento, e deste modo pensar quais tecnologias podem ser introduzidas para levar a empresa nesta direção considerando os desafios que ela traz para a organização no seu entendimento e aplicação. Tecnologia não se compra, se introduz. “tecnologia não se compra, se introduz”.

Os desafios nesta direção serão muitos, a introdução de novas tecnologias necessitará de um mudança conceitual na forma de trabalho interna na empresa e muitas vezes externa a empresa da mesma forma. Dificuldades como fornecedores não confiáveis, quebras de máquinas e demanda desconhecida são também desafios na direção desta integração horizontal.

3. Requisitos para a Integração Horizontal

Dois requisitos excenciais para o avanço da integração horizontal dentro do conceito da Indústria 4.0 são a padronização e a interoperabilidade:

“Interoperabilidade refere-se à capacidade de dispositivos e componentes de cumprir uma tarefa comum com base em interações e troca de informações. A interoperabilidade engloba propriedades funcionais e não funcionais e deve ser estabelecido se são compatíveis para os propósitos da colaboração”. (German Standardization Roadmap Industrie 4.0 – Version 3, p. 76)

“Os padrões são a sabedoria destilada de pessoas com experiência no assunto e que conhecem as necessidades das organizações que representam – pessoas como fabricantes, vendedores, compradores, clientes, associações comerciais, usuários ou reguladores” (ISO, Standards 2020)

De acordo com o Prof. Dr.-Ing. Holger Kohl 2018, professor da Universidade Técnica de Berlim, o custo da não-interoperabilidade é estimado em 40% do orçamento de TI das empresas na Alemanha. Desse modo, entende-se que empresas gastam anualmente 40% de todo seu orçamento destinado a área de TI para manter seus sistemas integrados.

Como exemplo nesta direção, é possível destacar a e-cl@ss, referência em padronização de dados para classificação e descrição inequívoca de produtos e serviços. Com esta referência de padronização, empresas e seus fornecedores podem facilitar o processo de integração devido a maior facilidade de interoperabilidade dos sistemas, pois serviços e produtos possuirão referências interoperáveis. Iniciativas como esta, auxiliarão empresas futuramente no processo de criação de valor dentro da cadeia de suprimento, especialmente no desenvolvimento de produto, com maior capacidade de análise e comparação de dados disponíveis.         – https://www.eclass.eu/

4. Publicação VDI para Integração Vertical & Horizontal no Contexto da Indústria 4.0

A VDI apresentou em uma publicação, um “framework” que destaca o cenário futuro da integração horizontal dentro da Indústria 4.0, primeiramente no contexto americano e europeu, mas tendo no Brasil a tendência de seguir nesta mesma direção:

Figura 1: Integração Vertical e Horizontal no contexto Industria 4.0 (Gehrke)

 

No desenvolvimento da integração horizontal, conforme demonstrado acima, o surgimento de três pilares fundamentais acontece, sendo descritos como Big Data, Lei de Proteção aos Dados e Segmentos de Negócio. Empresas estarão criando e coletando cada vez mais dados, criando dessa forma uma quantidade gigantesca de dados caracterizando o chamado Big Data. De acordo com a prognose do site alemão Statista, a quantidade que será gerada mundialmente de dados no ano de 2025, será de 175 Zettabytes. (Daten – Volumen der weltweit generierten Daten 2025 | Statista 2020)

Da mesma forma o pilar da Lei de Proteção aos Dados vem de encontro com o atual momento no Brasil, que tem planejado o início de vigência desta lei para agosto deste ano. De acordo com Vanessa Ribeiro, sócia da empresa Gusmão & Labrunie, “o atual momento de transição até a lei entrar em vigor gera incerteza significativa entre as empresas quanto a seu impacto para projetos de transformação digital”. A participação da Gusmão & Labrunie trouxe algumas diretrizes gerais para projetos de transformação digital que incluam uso expressivo de dados externos como por exemplo, coletar apenas os dados necessários para o funcionamento dos dispositivos, garantir que o produto ou serviço e seus componentes protegem dados pessoais, permitir acesso aos dados pessoais apenas aos indivíduos autorizados e utilizar princípio teste, validação e verificação com os dados.

O pilar Segmento de Negócio destaca as consideráveis diferenças de características nos diferentes segmentos de negócios em que a empresa está inserida, que da mesma forma podem afetar a maneira como se considera e insere os outros dois pilares mencionados anteriormente.

Em sua publicação a VDI também destaca as habilidades técnicas e interpessoais que serão pré-requisitos neste ambiente de trabalho que está surgindo. Em destaque para as habilidades técnicas estão análise de dados e informação, habilidade de iteração com interfaces modernas, habilidades de programação e entendimento de assuntos legais. Para as habilidades interpessoais destacam-se gestão própria de tempo, habilidades de trabalho em grupo, habilidades sociais, de comunicação, adaptação as mudanças e confiança em novas tecnologias.

5. Novas Tecnologias na Indústria

Dentre as tecnologias emergentes que poderão revolucionar cenários industriais e introduzir novos modelos de negócios, está a tecnologia do Blockchain. “A tecnologia Blockchain é um banco de dados distribuído de registros ou ledgers públicos / privados compartilhados de todos os eventos digitais que foram executados e compartilhados entre os agentes participantes do blockchain” (Crosby et al. 2016).

Blockchain foi primeiramente utilizado no setor financeiro com a intensão de facilitar e reduzir custos eliminando a necessidade da participação de uma terceira entidade em transações financeira entre duas instituições. Na indústria esta tecnologia se desenvolve da mesma forma com relação a transferências, contudo neste caso de dados e informação. Uma das características mais importantes do Blockchain está na transparência de cada transação garantindo facilidade para auditorias e na decentralização das iniciativas, pois os usuários da rede em questão, podem acessá-la através de diferentes dispositivos em locais distintos sem necessidade de autorização centralizada.

Através de tecnologias como Blockchain, novas oportunidades podem surgir para empresas ofertarem seus produtos e serviços, caracterizando a existência de uma variedade de possíveis novos modelos de negócios.

 

Texto escrito com base no Webinar apresentado juntamente com a VDI – Associação de Engenheiros Brasil.

Autor: Engelbert Schommer