Inteligência emocional VDI

É bem provável que, para grande parte dos engenheiros, falar sobre emoções pode ser considerado um tabu. Em uma das grandes áreas das ciências exatas, em que a racionalidade é priorizada, discussões sobre Inteligência Emocional não costumam ser frequentes nas universidades, em palestras ou empresas.

No entanto, o indivíduo que pensa que evitar conversas sobre esse assunto o torna uma pessoa cem por cento racional, está enganado. As emoções são inevitáveis e frequentes até nos profissionais mais sistemáticos.

Essa relação controversa que temos com os sentimentos começa ainda na infância, quando todas as demonstrações intensas são repreendidas, tanto por familiares quanto por pessoas próximas. Crianças mais sensíveis são ensinadas, desde cedo, de que as emoções devem ser contidas e de que as tomadas de decisões devem ser feitas baseadas totalmente na racionalidade. Naturalmente, com o passar dos anos, de forma implícita, cria-se um pensamento de assimilar razão com maturidade. A ideia de que as pessoas mais racionais são propensas a ser bem-sucedidas profissionalmente é amplificada em livros que tratam sobre desenvolvimento pessoal e crescimento profissional.

Em uma área como a engenharia, em que há prazos a serem cumpridos, grandes responsabilidades e relacionamentos com pessoas de outros campos, há uma pressão exercida em cima do profissional, exigindo que ele saiba como lidar com situações que não são ensinadas na faculdade e nem estão presentes nos livros. É justamente nesses momentos que a Inteligência Emocional se faz necessária, ensinando o engenheiro a enfrentar as adversidades resultantes de questões externas aos trabalhos técnicos.

O termo Inteligência Emocional foi popularizado pelo psicólogo, escritor e PhD da Universidade de Harvard, Daniel Goleman, em seu livro “Inteligência Emocional: A teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente”, publicado em 1996. O conceito trata da capacidade de identificar os próprios sentimentos e de gerir as emoções pessoais e interpessoais. Goleman afirma que a Inteligência Emocional é a principal responsável pelo sucesso e insucesso das pessoas, tanto para questões pessoais quanto questões profissionais.

A habilidade de gerenciar as emoções é uma capacidade tão eficiente para o exercício da profissão quanto o conhecimento técnico. A Inteligência Emocional é a responsável por definir as ações a serem realizadas, integrando razão e emoção, e, com isso, filtrando a expressão de sentimentos que, em certas situações, são necessárias, de maneira que não sobrecarregue o psicológico do engenheiro e interfira negativamente em seu trabalho.

As dificuldades enfrentadas na profissão já começam a surgir na graduação. Segundo uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), mais de metade das pessoas que se matriculam nos cursos de engenharia abandonam as aulas antes da formatura. A taxa de evasão é de 57,4%. Dentre os motivos que levam os estudantes a desistirem estão falta de base teórica em matérias como Matemática e Ciências, questões financeiras, desmotivação e necessidade prematura na escolha de especializações. As duas últimas dificuldades citadas revelam o impacto da Inteligência Emocional ao longo da jornada acadêmica.

Devido à complexidade do curso são exigidas, dos estudantes, atitudes que ultrapassam o campo da racionalidade. Um aluno que se destaca por seus conhecimentos teóricos pode se sentir desmotivado caso não consiga se integrar ao ambiente universitário ou, então, pode sentir-se pressionado por ter que decidir, tão cedo, qual será a sua área de atuação. Esses são exemplos de situações presentes nas universidades, que podem ser superadas com Inteligência Emocional. Essas tribulações se amplificam ainda mais quando ultrapassadas para o mercado de trabalho, no qual aumentam-se exigência, pressão e cobranças.

Goleman afirma, em sua obra, que as questões emocionais podem ser trabalhadas e desenvolvidas nas pessoas. O temperamento não é um fator preestabelecido e imutável. Os estudos realizados pelos especialistas identificaram que o cérebro funciona de maneira modular, uma vez que consiste em uma estrutura de sistemas e processos com a função de agir conforme a situação. Nesse conjunto abstrato, a inteligência acadêmica é apenas um dos campos da mente e não o fator principal que garante triunfo do indivíduo.

Para desenvolver melhores resultados em Inteligência Emocional, Goleman aponta as ações a serem trabalhadas em pessoas que desejam ter um controle emocional, equilibrando razão e emoção. São elas:

  • Reconhecimento das emoções: ser capaz de identificar os próprios sentimentos. Uma pessoa que é incapaz de reconhecer suas emoções tem mais chances de ser tomado por impulsos que, muitas vezes, prejudicam-no.
  • Controle emocional: ter a competência de gerenciar suas emoções faz com que o indivíduo consiga moldar suas atitudes conforme as necessidades, identificando, assim, os bloqueios mentais e buscando melhores alternativas para evitá-los, baseando-se na razão.
  • Automotivação: direcionar as emoções com o intuito de atingir determinado objetivo. Como já citado anteriormente, a desmotivação é prejudicial no caso dos engenheiros, desde a faculdade até a atuação no mercado de trabalho.
  • Empatia: reconhecer emoções nas outras pessoas contribui para a construção de relacionamentos positivos e frutíferos.
  • Relacionamento interpessoal: relacionar-se com as pessoas é uma maneira de gerir os sentimentos dos outros. Essa é a essência da popularidade e liderança.

Todas as habilidades acima são interdependentes para se alcançar bem-estar social e profissional. Essas ações podem ser treinadas e desenvolvidas por meio da criação de novos hábitos. É uma tarefa exigente que só é atingida com experiências pessoais adquiridas pelas relações humanas.